Entrevista feita realizada para o Lacaneando, a convite da querida profissional Patrizia Corzetto!
Albangela Ceschin Machado
Como pensar a psicanálise e a prática psicanalítica na terapia de casal
A psicanalista Albangela Ceschin Machado fala sobre como as novas modalidades familiares têm influenciado no comportamento dos casais. Nesta entrevista, a especialista em família, casal e sexualidade aborda também questões afetas à sexualidade.
Lacaneando – O que é terapia de casal?
Albangela Ceschin Machado – A terapia de casal é uma abordagem decorrente da necessidade de alguns casais em lidar com questões de natureza conjugal em que a comunicação está comprometida. Existem fases no casamento, entendendo casamento como convívio diário de duas pessoas que escolheram dividir projetos de vida, afetividade e sexualidade, que podem estar deteriorando uma relação que tinha um funcionamento saudável e satisfatório para ambos envolvidos. Existem muitos exemplos: nascimento do primeiro filho, dificuldades financeiras, insegurança em relação às expectativas não correspondidas, falha de comunicação entre ambos, os quais podem ser motivos para que muitos casais busquem um setting terapêutico.
Lacaneando – Quais as queixas e demandas que você recebe em seu consultório? E quando optar pela terapia de casal?
Albangela Ceschin Machado – Existem diversos motivos que alavancam a iniciativa de um casal procurar ajuda. Podemos, para fins didáticos, dividir em três momentos: a) Casais mais jovens procuram ajuda por encontrarem dificuldade em lidar com os diferentes valores trazidos das famílias de origem e se sentirem incapazes de construir um novo projeto a dois com valores e crenças estruturadas nesta nova relação, porém, com respeito às individualidades. b) Casais com alguns anos de convivência se percebem desmotivados com a relação por conta do fim do encantamento inicial e com a dificuldade de encarar a maturidade da relação, isto é, a dificuldade de entender a necessidade de se agregar novos estímulos e entender que outros projetos são possíveis além da fase da paixão. c) Casais com longos períodos de convívio podem ter um desgaste na relação quando os filhos estão criados, os quais, muitas vezes, já saíram de casa, o chamado ninho vazio, a aposentadoria está chegando e o desejo sexual está abalado pelo cansaço dos anos de convivência. Em todas estas etapas da vida existem questões relevantes como mudança de papéis, insatisfação na qualidade da vida sexual, traição, depressão, dependência química e etilismo que podem estar presentes em qualquer etapa da vida do casal e com certeza trazem transtornos conjugais. Alguns problemas de saúde podem também implicar num desdobramento importante no funcionamento do casal: depressão, estresse, acidentes vasculares incapacitantes, acidentes traumáticos que levam a deficiência física, baixa qualidade de vida, disfunções sexuais, dentre tantos outros. Os casais podem e devem procurar a terapia de casal na tentativa de uma reorganização ou para entender o que ocorreu e ter uma separação respeitosa. Um processo terapêutico é importante na medida em que trabalha as mágoas, os ressentimentos, as sensações de fracasso e as escolhas inconscientes. Quando existem filhos é importante uma condução onde os mesmos possam entender o que está ocorrendo com os pais para que certifiquem-se de que a separação dos pais não prejudicará a relação de afeto materna e paterna, transmitindo, assim, segurança emocional para os filhos.
Lacaneando – A modernidade, as redes sociais, as novas modalidades familiares têm influenciado no comportamento dos casais?
Albangela Ceschin Machado – Algumas novas questões da vida atual passaram a fazer parte de um cotidiano que em outros tempos não faria sentido. Pensando que a vida privada era uma atribuição do feminino e a vida pública uma atribuição do masculino, existiam demandas demarcadamente diferentes e que não se entrelaçavam. Hoje as pessoas, sejam homens ou mulheres, tem vidas públicas e privadas ao mesmo tempo, através do trabalho, das redes sociais, de grupos de amigos, de funções maternas e paternas etc. O estabelecimento de novos arranjos a partir das mudanças sociais (casamentos homoafetivos, famílias monoparentais, recasamentos etc) possibilitaram o surgimento de “novos jeitos “ de se relacionar. Apesar de tal surgimento, as demandas de afeto e desafeto são as mesmas de outros tempos, pois as mágoas, medos e inseguranças são atemporais. O ser humano sempre necessitou do olhar do Outro para constituí-lo em sua identidade, portanto, os valores, crenças, conceitos são sempre importantes, mas não invalidam a busca de identidade que é constituinte ainda na infância, e que vai ditar na idade adulta as escolhas que serão feitas, seja pela via do consciente ou do inconsciente. Quanto mais as pessoas fazem escolhas projetivas e inconscientes maior a possibilidade de se frustrarem e sofrerem. Num setting terapêutico o profissional tem que lidar com cada um dos envolvidos, são eles: um + um + nós dois = nós três. Teremos então uma somatória de elementos a entender e muitas vezes desconstruir para poder reconstruir. A necessidade da atualidade de urgência em todos os aspectos da vida faz com que os casais tentem lidar com a dinâmica relacional no mesmo compasso, o que pode ser destrutivo se entendermos que ser um casal é um processo de construção constante e processual. Zygmunt Bauman descreve a liquidez das relações: o entendimento de urgência e adequação social faz com que muitas das vezes as escolhas entre parceiros sejam equivocadas e breves, decorrentes da tentativa de estabelecer parcerias no mundo globalizado deixando de lado questões que são fundamentais para a construção da intersecção conjugal.
Lacaneando – Você é especialista em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina da USP. O que seria então uma terapia com enfoque na sexualidade?
Albangela Ceschin Machado – Trata-se de uma modalidade de atendimento terapêutico que visa obter soluções para uma demanda de casal pela via da disfunção sexual. Entendemos disfunções sexuais como queixas relativas à: baixa ou excesso do desejo sexual; transtorno da excitação; anorgasmia; dificuldade de ereção; ejaculação precoce (rápida); dispareunia; vaginismo. Estas são algumas das principais queixas de casais que referem precisar de ajuda nesta área. As disfunções sexuais podem ser de natureza orgânica, emocional e relacional. As questões relacionadas ao físico e orgânico tem sua natureza em questões de competência médica, enquanto que as questões emocionais e relacionais se remetem a atendimento com profissionais da saúde mental. Estamos falando de terapeutas sexuais, psicólogos, psicanalistas, terapeutas familiares e de casal dentre outros profissionais habilitados para atuar nesta área. Existem transtornos relacionados a abusos sexuais e violência sexual que necessitam de um atendimento que muitas vezes extrapola a terapia de casal e leva a um atendimento individual devido a sua natureza. O trabalho interprofissional é de fundamental importância nestes casos. Lidar com as disfunções sexuais não é apenas lidar com uma queixa desta natureza, mas entender porque um casal deposita na queixa sexual o resultado de uma dinâmica relacional insatisfatória. O terapeuta sexual vai auxiliar na descoberta desta forma de comunicação, para traduzir um sofrimento que se estruturou nesta vertente. Muitos destes profissionais trabalham com abordagem comportamental, com exercícios focados em mudanças da prática sexual. Muito embora seja um trabalho válido, não se pode descartar a necessidade de investigar o que está por traz deste comportamento, que é de fato a essência da disfunção na parceria afetivo sexual. Trata-se de um reflexo daquilo que não pode ser dito, não pode ser explicitado e ficou cristalizado num comportamento sexual simbolizado pela insatisfação e frustração, uma resposta ao recalcado.
Lacaneando – E quanto à sexualidade feminina e masculina, quais as queixas mais frequentes?
Albangela Ceschin Machado – Estudos atuais mostram que muitas mulheres têm queixas frequentes de falta de desejo sexual e dificuldade de orgasmo.Estes aspectos podem estar relacionados a fatores de natureza orgânica, emocional ou mista no caso da falta de desejo, muitas vezes esta queixa está relacionada à depressão, inabilidade da parceria, insatisfação na qualidade da relação, abusos, dentre outras causas. Já a anorgasmia, ausência ou dificuldade de orgasmo está relacionada a questões de entrega e confiança, o que pode ser traduzido numa dificuldade de se relacionar por questões psicológicas relacionadas a experiências na infância, adolescência ou mesmo na idade adulta por escolhas de parcerias não compatíveis. Quanto aos homens, estudos atuais demostram duas queixas principais. São elas: Disfunção erétil (dificuldade em ter ou manter a ereção): pode ter origem orgânica (diabetes, hipertensão, dentre outras doenças) ou emocional (ansiedade em relação ao desempenho, medo da parceira, dentre outros aspectos emocionais); na maioria das vezes é mista. Ejaculação precoce: Na maioria das vezes tem origem emocional (ansiedade em relação ao desempenho, ansiedade generalizada como estrutura psíquica, medo de machucar a parceira, resposta a uma insatisfação com a parceira, dentre outros aspectos emocionais).
Lacaneando – O que é família? Como entender a composição da família na pós-modernidade?
Albangela Ceschin Machado
– Na atualidade surgiu a necessidade de redefinir o conceito
tradicional, as novas configurações retratam a urgência em fazê-lo
objetivando contemplar todos os envolvidos num convívio e numa dinâmica
de afeto. Na atualidade, a família é representada por novas estruturas:
recasamentos, escolhas alternativas de convívio (por exemplo casas,
cidades e até países diferentes), casais homoafetivos, adoções, gravidez
precoce, fertilização in vitro, dentre tantas novas modalidades. Estes
novos arranjos reportam a novas funções no contexto familiar e levam a
refletir outras questões como as demandas legais, jurídicas e
religiosas. A sexualidade e a procriação sempre tiveram sua autorização
pela via do matrimônio; a atualidade descarta esta necessidade. Na
atualidade pode-se pensar na sexualidade como algo da ordem do
individual e a procriação da ordem do uniparental. Maria Rita Kehl
argumenta em prol da família tentacular, conceito que pode caber nas
questões vividas atualmente, pois desrotula conceitos saturados. Família
tentacular contemporânea representa tudo que foi vivido, nomeia o ciclo
vital e estabelece parâmetros verdadeiros pautados em sonhos e
desilusões, projetos vividos e abandonados, filhos como representantes
muitas vezes das vivências frustradas. Tudo isso é real, autêntico e
valorizado como experiências validadas por escolhas conscientes ou
inconscientes e retratadas na identificação de cada um no que o
constituiu ou não. Questões familiares pautadas na autoridade estão em
voga devido à reorganização familiar e distribuição de papéis dentro da
mesma (pais, novos pais, padastros/madastras etc), conflitos frente às
tradições e valores da família nuclear levam a uma dificuldade de
estruturação dos envolvidos.Também
se insere em tal problemática as instituições sociais que recebem
crianças e adolescentes levados pelos responsáveis desejantes de delegar
a responsabilidade dos filhos. Uma família estruturada é aquela que
consegue ter indivíduos conscientes de suas escolhas, que não projetam
suas frustrações e que conseguem passar valores e conceitos que
realmente acreditam serem verdadeiros e estruturantes entre os seus.
Respeitam a individualidade de cada um sem abandonar a conjugalidade e a
familidade.
Albangela Ceschin Machado – As gerações são responsáveis pelos valores que sustentam maneiras de entender a vida, seja pela via da aceitação ou da contestação, auxiliando na construção de novas gerações ou engessando comportamentos, sendo responsáveis por vezes pelos sintomas familiares que dificultam as relações e paralisam o desenvolvimento de seus familiares. As relações geracionais são responsáveis pela passagem de formas de conduta e de padrões de comportamento, que podem ou não agregar na constituição psíquica das pessoas: tem força de lei, trata-se do que é passado de geração para geração e, romper com isso, muitas vezes é um exercício de rompimento com a compulsão a repetição.
Lacaneando – Você também atende adolescentes em seu consultório. Como você define adolescência? E quais as queixas mais frequentes?
Albangela Ceschin Machado – Trata-se de uma fase na qual o indivíduo tem que se entender com a criança que deixou para trás e se aproximar do seu adulto que é um sujeito desconhecido e ameaçador. Precisa contar com referências familiares e abandonar conceitos que o limitem de fazer experimentações para se autorizar a seguir em frente, construindo uma vida compensadora e lidando com suas incertezas. As principais queixas do adolescente são relativas a escolhas profissionais, a dificuldades de comunicação com os pais ou responsáveis e a necessidade de pertencimento a uma “tribo” que o represente. Algumas dificuldades tem uma demanda advinda daquilo que o jovem não aguenta sustentar e, por vezes busca soluções nas drogas que lhe darão a ilusão de sucesso em sua almejada conquista. Lidar com a sociedade atual e sua demanda cruel, principalmente para a menina, que se envolve no encantamento da perfeição, beleza e magreza, leva a escolhas destrutivas, principalmente se sua relação com a figura materna tem fragilidade emocional. São casos muitas vezes relacionados a bulimia e anorexia.
Lacaneando – Como pensar a psicanálise e a prática psicanalítica na terapia de casal?
Albangela Ceschin Machado – A psicanálise na clínica de casal traz a possibilidade de se fazer um reconhecimento do idealizado, de perceber que a fantasia é de si próprio em relação ao outro, e que o outro não dará conta das necessidades e desejos que gostaríamos ver satisfeitas.A crise se instala geralmente quando a fantasia de completude cai por terra. Falando de duas possibilidades: Paixão e Amor.
Paixão, uma idealização do outro, pode ser o desejo inconsciente de resgate de uma situação anteriormente vivida ou resgate de uma pessoa perdida, uma espécie de busca de uma figura importante do passado ou ainda uma espécie de fusão com o outro, sobras de um desejo narcisista da criança de ficar fusionado à mãe. Existe aí a necessidade de superação para transformação da paixão em outro tipo de afeto, podemos chamar de amor. O amor, precisa de outros ingredientes como confiança, respeito e admiração. É construído a partir da convivência de duas pessoas vinculadas por escolhas conscientes reconhecendo limites, diferenças e, principalmente, individualidades. A crise na relação de casal pode ter uma função estruturante: isto ocorre quando as vivências são compartilhadas com uma mutualidade da função de continência com capacidade de suportar perdas e lidar satisfatoriamente com novas possibilidades. O profissional que atende casais não é responsável por dar conta da união ou separação dos mesmos, que muitas vezes é a demanda dos casais que procuram ajuda, pois o psicanalista não pode ser depositário dessas expectativas. O profissional deve deixar claro que existe uma trama inconsciente que neste momento os conduz para uma crise e um desencontro, que nem sempre o desejo de mudanças é de ambos, o que pode colocar um casal em descompasso. Não existem soluções mágicas de resgate de um relacionamento, é uma proposta de investimento em algo que ambos acreditam que faz sentido. Não existe uma solução imediata, é um processo que leva tempo e é “uma caixinha de surpresas”. Na clínica é importante o profissional se haver com uma proposta que possibilite: um olhar entre o casal de não culpabilidade do outro pelo sofrimento na relação: que as escolhas podem, e são na grande parte das vezes, inconscientes; um momento de tomada de consciência do casal objetivando um encaminhamento para um novo arranjo da relação em bases diferentes das anteriores; uma conquista a lapidar. Outro aspecto relevante na clínica com casais é entender os vínculos. Avaliar a qualidade dos vínculos que existiu, existe e que poderá existir. Dentro da concepção psicanalítica de que o ser humano se constituí sempre a partir de um outro, a qualidade da relação que o adulto estabelece está ligado diretamente com sua primeira experiência, isto é, na relação da criança com sua mãe (ou com quem tem esta função materna). A experiência mãe/bebê que se estabelece, para a satisfação das necessidades orgânicas e principalmente afetivas, vão garantir um vínculo sadio com capacidade de empatia que será estruturante para a vida afora. Outro aspecto importante nas questões pertinentes ao casal é a capacidade de resiliência, isto é, a força interior do sujeito que contribui para a não desistência diante de situações difíceis e desesperadoras da vida. O trabalho analítico com um casal está findo quando os envolvidos se dão conta que ninguém é insubstituível, que existe uma procura por uma parceria que seja agregadora na relação, mas que seremos sempre incompletos na busca de algo que jamais nos completará.
Albangela Ceschin Machado é psicanalista (NPP – Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas), especialista em família e casal (UNIFESP) e sexualidade humana (FMUSP).
e-mail: albangela@terra.com.br
